Lá estava ela.
No mesmo lugar de sempre, com um livro à mão, fingindo atenção. Seus pensamentos nem ali estão. Alçam vôos, vadiando em cada possibilidade de fuga. Finge não ser desse mundo. Finge não sentir dor. Finge que conhece seus próprios sentimentos. Mas o que nela é real?
Seus olhos fixos em algum ponto, nada importante, apenas prendendo-se aos pensamentos. O que ela pensa? Quais são seus medos? Como e com que intensidade ama?
Mas sua máscara se desfaz. Aos poucos mostra sua inesperada pureza. Olhos sedentos de algo que desconhece. Um coração vazio, frio, mas descompassado. Ela quer falar de amor.
Teus braços esperam ansiosamente por abraços protetores. Ela só quer um ombro para chorar, falar de suas dores, sem ter que fingir-se. Ela desconhece sua própria força. Esta sempre ali, sozinha. Senta-se todo dia no mesmo ponto, lança mão de seu inseparável livro e vaga por ai.
Viaja em pensamentos e cria mundo em sua mente. Ali, onde ela sabe: ninguém poderá detê-la, desprezá-la, nem mesmo zombar de seus temores. Quando chega a noite ela se vai, deixa em seu canto a sombra de sua presença. Vai sonhar outros sonhos.
Tranca-se, o corpo e o quarto. Agora inventa. Ela tem um abraço, tem o calor. Nada real porém, apenas sua imaginação. Objeto do qual dispõe para não ser só.Acaba seu sonho, seus olhos não são capazes de disfarçar sua decepção. E ela chora. Chora todas as suas dores, todos os seus amores não vividos, suas angústias. E dorme. Como um anjo, desprovido de asas, adormece entre soluços. Essa é sua vida. Ela sabe ser pouco, mas tem medo de se jogar.
Amanhece o dia e tudo se repete. Seu livro, seus devaneios, seus encontros. Insistentemente a mesma rotina. La está ela, os olhos fixos, os pensamentos distantes, sua sombra e seus sonhos.
Ela talvez não exista, apenas viva. Mas não se deixa viver. Por vezes mato-a, mas ela renasce. Insistente, forte, com o coração dominando meus sentidos.
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