Ali, numa mesa de bar. Na mão um cigarro, das doses já não tem mais conta. Seu rosto marcado, a maquilagem borrada. Não ela não usa batom. Seus lábios, ontem desejados, estão opacos e amargos.
–Garçom, mais uma dose!
Embriaga-se. Por algum motivo hoje suas dores estão à flor da pele. Bebe para esquecer. Pobre moça, amanhã esquecerá o porre mas irá lembrar-se da dor. Esta que no momento lhe esmaga o peito, lhe causa angústia, repulsa, enjôo, raiva da própria fraqueza.
Frágil mulher. Carrega o peso de seus sonhos em sua caminhada, as vezes tranquila, outras vezes turbulenta, mas sempre só. Desaprendeu a dividir os sentimentos. Não ama, não se entrega, não quer , e não sabe como, se prender. Sente vontade de chorar. Mas tornou-se fria.
Acende mais um cigarro, outra dose e a noite já quase madruga. Suas dores estão quase anestesiadas. No bar, apenas os últimos amantes. Ela não está só. Em silêncio compartilha sua dor.
–Amigo, a saideira!
Seu corpo já não aceita mais. Mas ela precisa embriagar-se. Embora não suporte encarar sua cara embriagada. Não suporta pena. Ainda se lembra que mora do outro lado da rua. Melhor partir.
–Amigo a garrafa e a conta!
Termina sua dose, paga, se agarra à garrafa e sai. Ainda não saiu do salto, mas tem um “cambalear” que não lhe é comum.
Já em seu quarto. Pensa: -um livro, um banho…não! Bebendo na garrafa. Falta pouco. Se entrega! Sim, agora sim, suas lágrimas. Chora como uma criança no silêncio de seu quarto.
Toma o último gole. Minutos depois se entrega ao sono.
Já é manhã. Se espanta com sua inesperada nudez. Depara-se com uma garrafa vazia. Não se lembra como chegou até sua cama. Banha-se, prepara seu café e sai.
Seu dia hoje será longo.
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